Editorial |
P. Nuno Rosário Fernandes
Distanciamento social não é afastamento
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O tempo que estamos a viver, na especificidade desta pandemia, tem trazido grandes desafios e interpelações ao mundo. Para além de percebemos os efeitos na saúde, estamos a perceber os efeitos colaterais, na economia dos países, na pobreza que aumenta, no desemprego que cresce, na solidão que se vai identificando cada vez mais, e num efeito psicológico provocado pelo medo e o terror que a comunicação social vai acentuando pelo ‘bombardeamento’ constante de notícias sem uma reflexão mais aprofundada do que estamos a viver.

Informar é preciso e essencial, mas é necessário humanizar mais a comunicação. Não se trata, apenas, de fazer apelos sensíveis que toquem o coração, mas de olhar mais para o lado humano da notícia, fazendo a releitura da história, contando estórias, revelando vidas, rostos e corações concretos que sabem amar.

Falando nas Jornadas Nacionais da Comunicação Social, a mais de uma centena de comunicadores católicos, o Cardeal José Tolentino Mendonça afirmava ser necessário “reforçar o pacto comunitário”. Isto é, no atual contexto em que vivemos, pelas ausências e distanciamentos, “percebemos o valor da comunidade e como ela é algo que precisamos redescobrir”. Por isso, na comunicação, para além das notícias, é preciso a reflexão.  Um “tipo de comunicação que toque dimensões que habitualmente não estão presentes”, observava D. José Tolentino. A relação e a proximidade são necessárias e a comunicação não pode acentuar o distanciamento, mas promover a aproximação uns dos outros.

Nesse sentido, é preciso dar o passo para encetar uma comunicação que promova o encontro, porque distanciamento não pode ser afastamento. Fala-se de distanciamento social, mas, no fundo, o objetivo é o distanciamento físico pelo perigo de um contágio. O distanciamento social afasta-nos dos outros, coloca-nos à margem, sobretudo da vida uns dos outros, e precisamos lutar contra isso.  Precisamos, sim, promover a aproximação, a relação, o cuidado de uns pelos outros.

Por este motivo, o Papa Francisco deu a conhecer, esta semana, o tema da 55.ª Mensagem para o Dia Mundial das Comunicações Sociais: ‘Vem e vê’ (Jo 1,46) -  “Comunicar encontrando as pessoas como e onde estão”. Este tema parte de uma citação do evangelho de São João, que faz perceber que “o anúncio cristão, mais do que palavras, faz-se por olhares, testemunhos, experiências, encontros, proximidade”. E no tempo em que vivemos, explica a nota de imprensa da Santa Sé, “a comunicação pode tornar possível a proximidade necessária para reconhecer o que é essencial e compreender verdadeiramente o sentido das coisas”.

 

Editorial, pelo P. Nuno Rosário Fernandes, diretor

p.nunorfernandes@patriarcado-lisboa.pt

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