Por uma Igreja sinodal |
A Sinodalidade nos Padres da Igreja
De Jerusalém a Antioquia – Uma Igreja que nasce sinodal
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Na história da Igreja o Sínodo apostólico de Jerusalém (At 15,22-29) será muitas vezes invocado como o primeiro concílio e modelo inspirador da posterior prática sinodal. Embora, no Novo Testamento, esse constitua um episódio único, é, contudo, legítimo pensar que em cada comunidade local se exercitassem ordinariamente idênticas formas de colegialidade. São significativos os indícios que apontam neste sentido: Segundo Atos (1,14), toda a comunidade crente jerusolimitana se envolveu na substituição de Judas por Matias; Os sete diáconos (At 6,1-6) também foram eleitos pela comunidade; Em Antioquia é a comunidade que recebe a comunicação dos enviados vindos de Jerusalém (At 14, 27). Nas comunidades paulinas encontramos provas dessas assembleias comunitárias para resolver assuntos locais (cf. 1 Cor 5,3 e 13). O próprio modo de Paulo operar e as orientações que dá implicam a comparticipação dos diferentes membros da comunidade (1 Cor 7,17; 11,34; 16,1; Fl 2,25-29). Eusébio de Cesareia (séc. IV) guarda memória de uma «tradição antiga» segundo a qual, «depois do martírio de Tiago e da queda de Jerusalém que se lhe seguiu, os Apóstolos e discípulos do Senhor ainda vivos reuniram-se de toda a parte num mesmo lugar, juntamente com os que eram da família do Senhor… para, todos juntos, elegerem o sucessor de Tiago» (Hist. Ecl. III,11).

Não foi, porém, numa reunião conciliar que os seguidores de Jesus de Nazaré escolheram o nome a adotar. Segundo Atos dos Apóstolos (11,26), os discípulos de Jesus «foram chamados, em Antioquia, pela primeira vez, com o nome de “Cristãos”». Este nome foi-lhes dado, ao que parece, pelos pagãos, simplesmente para significar «os seguidores de Cristo». Foi também em Antioquia que, S. Inácio, terceiro bispo desta cidade (depois de S. Pedro e de Evódio), apelidou, pela primeira vez, a Igreja de «católica».

Antes, porém, de se chamarem «cristãos» ou «igreja católica», como se denominavam ou identificavam os seguidores de Jesus Cristo? Em Atos 9,2 diz-se que Saulo, antes de se converter em Paulo, perseguia «os homens e mulheres, seguidores do caminho». Por conseguinte, «os do caminho» poderá ter sido a primeira forma de designar os cristãos. No caso, o Caminho é o próprio Jesus (Jo 14,6). Segundo a Didachè, os batizados distinguem-se por seguirem «o caminho da vida» que consiste em viver a «via» indicada pelo Sermão da Montanha. Jesus «peregrino do Pai» é «o caminho para o Pai» (Jo 14,6). Ser cristão é, portanto, seguir o Caminho, caminhando com os irmãos. Esta a razão de ser de uma outra designação que os cristãos adotaram para se autodenominar: paroíkoi, de onde vem a palavra «paróquia» que, na origem significa «os que estão a caminho de Casa».

Não será coincidência que o termo «sínodo» (σύνοδος) ocorra, pela primeira vez, nas Cartas de S. Inácio de Antioquia, grande promotor do ideal da Igreja-synphonica. Para este bispo mártir, a Igreja é a comunidade de «todos os que percorrem o mesmo caminho»: εστέ καὶ σύνοδοι πάντες (Ef. IX,2), onde «todos» (πάντες), portanto, são synodoi. O contexto em que esta afirmação é proferida é fundamental para entendermos o seu pleno alcance. Dirigindo-se aos cristãos de Éfeso, S. Inácio diz-lhes: «vós sois pedras do Templo do Pai, preparados para a construção da casa de Deus Pai, erguidas até às alturas por meio da grua que é a Cruz de Jesus Cristo, servindo-vos do Espírito Santo à maneira de corda; a vossa fé vos eleva e a vossa caridade é caminho que vos conduz a Deus. Sois, portanto, todos companheiros de caminhada, portadores de Deus, portadores do templo, portadores de Cristo, portadores de santidade, ornados em tudo com os ensinamentos de Jesus Cristo» (Efésios, IX).

Como vemos, a sinodalidade tem a ver com a «construção da Casa do Pai» (Igreja), em que todas as «pedras» contam, quando, «elevadas» por Cristo e «movidas» pelo Espírito, percorrem «o mesmo caminho, na caridade, para o Pai». As frases finais associam inequivocamente a sinodalidade à condição e vocação de todos os cristãos à santidade, bem como à participação ativa na vida litúrgica e construção da Igreja mediante o que hoje se chama o sensus fidei. Podemos, por isso, constatar que, desde a sua génese, a sinodalidade compendia as notas identitárias da Igreja Católica. Ao ponto de S. João Crisóstomo, também nascido em Antioquia, poder afirmar que «Igreja e sínodo são sinónimos» (Εκκλησία γάρ… συνόδου εστὶν ὄνομα) (Explanatio in Ps. 149,1).

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