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Padre José Vieira, superior dos Missionários Combonianos, nos 150 anos da congregação e 70 de presença em Portugal
“Procura constante por novos caminhos”
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A congregação dos Missionários Combonianos do Coração de Jesus está a celebrar 150 anos da sua fundação e 70 anos de presença em Portugal. Ao Jornal VOZ DA VERDADE, o superior provincial, padre José da Silva Vieira, apresenta a congregação missionária, aborda com “tranquilidade” a redução do número de missionários e aponta como determinante uma nova “leitura do carisma” da congregação.

 

É com tranquilidade no futuro – que assegura estar “nas mãos de Deus” – que o superior dos Combonianos em Portugal se mostra perante um número cada vez menor de missionários. “Segundo as nossas previsões, e se os números continuarem assim, o instituto está a diminuir e a envelhecer porque o número dos missionários que entram não cobrem os que saem ou morrem. No ano passado, por exemplo, morreu uma trintena”, constata o padre José Vieira, apontando um caminho a ser feito: “Temos de fazer este exercício de esvaziamento, de aceitar com tranquilidade este aspeto. Depois, isso leva-nos também a diminuir os nossos compromissos. A tentação é sempre aumentar mas, com menos forças, não dá”, refere.

Contudo, o sacerdote Missionário Comboniano afasta a preocupação sobre “o que vai acontecer no futuro” e aponta como desafio atual continuar com uma congregação “aberta, tranquila e a viver a missão”. “A essência do nosso trabalho não é preocuparmo-nos com o futuro do ‘homocombonianos’ mas é preocuparmo-nos com sermos fiéis àquilo para que fomos criados: ser uma presença de Jesus entre os mais pobres e abandonados. África ainda é um apelo muito grande. Sentimo-la como nossa pátria. O Senhor é o Senhor da missão e Ele é que nos dá as vocações, tendo também que fazer por merecê-las, através da formação e da forma como vivemos o nosso compromisso”, sublinha o padre José Vieira, destacando o ponto essencial para “atrair os jovens de hoje”. “Temos que ter vidas que também sejam atrativas, no sentido de estilo, opções, vivermos juntos, em comunidade. Houve uma altura em que éramos muito guiados para o trabalho e a vida comunitária era um suporte para o trabalho. Hoje, vemos que a vida comunitária é o primeiro ato de evangelização que temos”, indica.

 

Disponíveis para a novidade

O envelhecimento dos sacerdotes desta província portuguesa é uma constatação. “A média de idades dos missionários que estão em Portugal é de 66 anos. Estamos em Viseu com uma comunidade em que o mais novo tem 76 anos e o mais velho 88. É gente que trabalhou, fez a missão e agora tem direito a ter um fim de vida mais descansado. A casa que começou por ser um seminário, é agora a casa de acolhimento”, refere o padre José Vieira.

A “míngua de vocações”, segundo refere, é também fruto de um contexto paroquial “não tão favorável como antigamente”. “Estávamos habituados a um tipo de animação que era nas paróquias, a fazer encontros. Hoje, se fizermos um encontro numa quinta-feira à noite, não vem ninguém. Temos que estar disponíveis para outro tipo de animação”, explica o sacerdote, exemplificando alguns meios através dos quais se pode estender a animação missionária. “Os mass media, revistas, internet, redes sociais – onde também os missionários têm as suas páginas. Isso também são formas e métodos de fazer animação missionária, através dos conteúdos que lá pomos e da presença que somos. Levar a pensar as redes sociais não como uma feira de vaidades, mas como espaço de encontro com as pessoas, sobretudo os nativos do digital, é um desafio grande e exige alguma aprendizagem de linguagens e atitudes novas”, refere.

 

Dedicar a vida a África

Os Missionários Combonianos, de origem portuguesa, são 90. Três deles estão em Roma, nos serviços centrais da congregação, e os restantes estão espalhados por outros continentes, nomeadamente na Ásia, onde o superior daquela região é português. Em todo o mundo, a congregação tem cerca de 1600 missionários.

Fundada a 1 de junho de 1867, em Verona, por São Daniel Comboni, a congregação nasceu a partir do intuito do fundador: “Dedicar a sua vida a África”, de onde agora, nasce, em processo inverso, o maior número de missionários. “É de África que temos gente nova a chegar: Moçambique, Benim, Togo, Gana, Congo. Em 2015, elegemos o primeiro superior geral africano. É um etíope. Pela primeira vez, as províncias e delegações africanas têm todas um africano, com exceção da Etiópia que tem um italiano. Há um passar de geração e geográfico. Os africanos já não são só o centro da missão, mas são eles também os ‘donos’ da própria missão”, explica o padre José Vieira.

São Daniel Comboni “fundou o instituto à força”, aponta. “Ele pertencia a um instituto que se dedicava a criar jovens com capacidades, mas vindos de famílias pobres, tal como ele. Quando tinha 15 anos leu a história dos mártires do Japão, de Santo Afonso Maria de Ligório, e ficou entusiasmado, querendo ser missionário no Japão. Pouco antes de fazer 18 anos teve um encontro importante com um padre que veio de uma missão, no Sudão do Sul. O padre falou-lhe com tanto entusiasmo que Daniel Comboni jurou, a seus pés, dedicar a vida a África. Ele era filho único e, depois de assegurar a velhice dos pais, partiu para a missão. Esteve 11 meses no Sudão do Sul e, depois desse tempo, um colega dele morreu e os restantes quatro estavam de saúde muito precária, por causa das doenças tropicais. No entanto, Comboni não se deixou abater, pegou na ‘derrota’ como um meio de repensar e fez um plano, a partir do raciocínio: ‘Já que nós, missionários brancos, não aguentamos os climas tórrido e perigosos da África profunda e, por outro lado, os negros quando vêm estudar para a Europa morrem com o nosso frio de inverno, porque é que a gente não chega a um meio caminho?’ Começou, no Cairo, no Egipto, a estabelecer pontos para que os africanos fossem do interior para serem formados e os restantes – missionários de todas as congregações – formassem padres, irmãs, catequistas, casais, artesãos, professores. A ideia foi lançada e aceite mas só houve dois grupos que aceitaram trabalhar com Comboni: os Lazaristas e um grupo de irmãs francesas. Perante isto, para a execução do projeto, fez nascer os Missionários Combonianos e, cinco anos depois, as irmãs Missionárias Combonianas. Era um projeto para facilitar a presença dos missionários em África, envolvendo os africanos nisso”, explica o religioso Comboniano, padre José Vieira.

 

Missão em Portugal

No Patriarcado de Lisboa, os Missionários Combonianos têm, a seu cargo, desde 2010, as paróquias de Camarate e Apelação, na Vigararia de Sacavém, onde estão presentes com dois sacerdotes, um leigo missionário e algumas religiosas. No entanto, a presença desta congregação, no nosso país, data de 1947, trazida por um sacerdote italiano que, depois de não ter encontrado disponibilidade em Fátima, rumou à Diocese de Viseu, para procurar a aceitação do bispo diocesano. “Nessa altura, o bispo viseense estava a terminar uma novena em que pedia uma congregação masculina de religiosos para a diocese, uma vez que não tinha nenhuma. Por isso, recebeu de braços abertos o padre italiano da nossa congregação”, descreve o atual superior provincial.

A data que foi comemorada no passado dia 30 de abril, com um Missa, precisamente em Viseu, ficou também marcada pelo lançamento de um livro, da autoria do padre Manuel Augusto, Comboniano, com cerca de 400 páginas, que retrata a história da congregação em Portugal. “É uma retrospetiva que evoca e que dá pistas para o futuro”, descreve o padre José Vieira, fazendo memória da “atitude, alegria, dedicação e proximidade dos primeiros Combonianos – todos italianos – indo de bicicleta, de terra em terra, para celebrar Missas”. “Uma das lições que aprendemos nestes 70 anos de história foi a necessidade de não nos fecharmos nos nossos mundinhos, nos nossos castelos, mas continuar a fazermo-nos próximos das pessoas e a comunicar, com elas, aquilo que nós temos”, refere o sacerdote religioso, apontando também uma necessidade de “procura constante por novos caminhos”. 

 

Tempos de mudança

Na efeméride agora comemorada – data para “não embandeirar em arco” mas para “lembrar” as vidas de tantos outros missionários –, o padre José Vieira relembra também como nasceu o seu desejo de ser sacerdote Comboniano. “A maior experiência que eu tenho, quando era miúdo, era de ver a alegria dos missionários e o espírito de sacrifício com que trabalhavam e estavam dispostos a sair e inovar, com audácia”, descreve. “Quando tinha 10 anos, sabia o que queria ser: padre. Depois, quando tinha 11 anos conheci os Combonianos e queria ser Comboniano. Quando tinha 15 anos, os meus pais propuseram-me deixar os Combonianos e ir viver para Lamego para ser sacerdote diocesano. Mas eu disse-lhes: ‘A minha vocação é missionária. Ou sou Missionário Comboniano ou caso-me’”, recorda. Para o padre José Vieira, esta clareza sobre o projeto que Deus lhe tinha guardado contrasta, em parte, com a indefinição atual nas gerações mais novas, quanto ao que querem ser no futuro. Esse é também, segundo este sacerdote, um obstáculo para a opção por uma vida ‘totalmente missionária’. “Hoje em dia, não há um projeto de vida, vivemos o instantâneo e andamos perdidos no instantâneo. Há esta indefinição e um medo de projetos a termo para a vida. Não se trata de falta de compromisso mas de um medo de tomar uma decisão. Por isso, nos Missionários Combonianos, o que tem mais atração, neste momento, é a vocação missionária dos leigos Missionários Combonianos. Fazem um compromisso para a vida mas, em termos práticos, eles vão à missão durante alguns anos, depois casam-se e continuam cá a fazer animação missionária, a formar outros jovens que também vão fazer uma experiência missionária de longo prazo e valiosa... mas não ficam ‘presos’, têm outras alternativas. No entanto, ao entrar para missionário consagrado, sabe que não vai casar, que a vida é entre o nosso país e a missão e as pessoas gostam mais de estabilidade”, refere o superior provincial, explicando que este fator “obriga” a fazer uma nova “leitura do carisma” da congregação. “Para mim, não havia problema nenhum dizer que quero ser Comboniano para toda a vida. Para as gerações mais novas, compromissos para a vida é difícil de tomar, até mesmo o casamento! Não sei qual será a nova maneira de ver o carisma... já demos o primeiro passo, nesse sentido, ao criarmos os leigos Missionários Combonianos, com o objetivo de partilhar o carisma com os leigos. Fala-se também em partilhar o carisma com as famílias... São tempos de mudança e nós andamos à procura”, conclui.

 

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Padre José da Silva Vieira

Nasceu no distrito de Viseu, na vila de Cinfães, e desde muito novo já sabia o que queria ser: padre missionário. Aos 12 anos conheceu a congregação dos Missionários Combonianos do Coração de Jesus, foi ordenado no dia 19 de junho de 1987 e missionou vários anos no continente africano – a sua “pátria” – em países como a Etiópia e o Sudão do Sul. Atualmente, com 57 anos, é o superior provincial dos Missionários Combonianos, em Portugal, e presidente da Conferência dos Institutos Religiosos de Portugal (CIRP).

 

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Bispo Comboniano resgatado por Comandos portugueses

Os Comandos portugueses que estão ao serviço das Nações Unidas na República Centro-Africana resgataram, no passado dia 14 de maio, o bispo espanhol D. Juan Jose Aguirre de um ataque. O prelado dos Missionários Combonianos tem feito a proteção de milhares de muçulmanos perseguidos pelas milícias locais naquela região do país, a cerca de 700 quilómetros da capital Bangui.

texto e fotos por Filipe Teixeira
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