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Consagração na Ordem das Virgens
Cristo basta
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Pela primeira vez no Patriarcado de Lisboa, duas leigas, Ausenda Pires e Fernanda Lopes, foram consagradas na Ordem das Virgens. O rito da consagração decorreu no passado dia 2 de janeiro, na igreja de Nossa Senhora do Cabo, em Linda-a-Velha, e foi presidido pelo Cardeal-Patriarca de Lisboa que considerou a “entrega das consagradas” um sinal, para o mundo, de que “Cristo basta”.

 

Ausenda Pires e Fernanda Lopes são as primeiras consagradas na Ordem das Virgens, na Diocese de Lisboa. Restituindo uma ordem de consagração recuperada pelo Papa Paulo VI, após o Concílio Vaticano II, estas duas consagradas estão agora dispostas a viver a sua consagração no meio do mundo. “Viverei de forma muito normal, partilhando a vida com os homens e as mulheres deste tempo. Mas viverei isso em comunhão com a Igreja, Esposa de Cristo, e em oração constante, com momentos diários concretos, tais como na Eucaristia, rezando a Liturgia das Horas, mas também rezando com o meu trabalho profissional e pastoral, para que tudo seja oferecido ao Esposo e para que o Esposo seja oferecido a todos”, refere ao Jornal VOZ DA VERDADE Ausenda Pires, de 32 anos, atualmente a trabalhar no Banco de Portugal. Juntamente com esta jovem, Fernanda Lopes, com mais de 60 anos e reformada, foi também consagrada na mesma celebração e destaca, ao Jornal VOZ DA VERDADE, a total confiança em Cristo, apesar da sua fragilidade. “Esta vida de consagrada será feita com uma entrega total a Ele. Peço-Lhe que me ajude porque isto é barro, do mais fraquinho que há. Confio inteiramente n’Ele e em Nossa Senhora”, sublinha Fernanda.

Segundo Ausenda Pires, a celebração presidida pelo Cardeal-Patriarca de Lisboa tratou-se da “confirmação da Igreja de todo o discernimento feito pessoalmente e em Igreja”. “Uma coisa é eu ir discernindo, com a ajuda da Igreja, sobre qual é a minha vocação; outra é a de ser aceite e confirmada pelo Bispo e por toda a comunidade eclesial”, refere Ausenda, revelando que este passa a ser um tempo para discernir sobre “como viver a vocação em cada dia”.

 

Realidade esponsal

Na homilia da celebração, e antes do rito da bênção solene de Consagração, o Cardeal-Patriarca de Lisboa lembrou a todos os cristãos presentes que as leituras e o significado daquela celebração “aplicam-se a todos, como Igreja de Jesus Cristo”. “A realidade esponsal é, na vida humana, aquilo que mais exprime o que pode ser a mútua entrega, a vida como um só: a Esposa do Cordeiro, como acontece com Jesus Cristo, que se entrega por todos nós e que de nós espera retribuição semelhante. Esta é uma linguagem comum, para todos nós”, frisou D. Manuel Clemente, lembrando as diferentes “ofertas de Cristo à sua Igreja”, ao longo dos tempos: “Aquilo que Jesus Cristo oferece à Igreja e aquilo que na Igreja, no espírito de Jesus Cristo, é retribuição também, e tem tido, ao longo dos séculos, várias concretizações específicas e todas elas valem, no seu conjunto: a vida sacerdotal, a vida laical, na vida de todos, na vida religiosa. Tudo isto vale no seu conjunto, para significar o mesmo: a esponsalidade da Igreja, como resposta à esponsalidade de Deus e do próprio Cristo. Cada um destes sinais de sacramento ou sacramentais aviva e desperta em todos nós, pelo realismo das vidas vividas, o que a todos nos deve importar. Isso significa, antes de mais, recebê-l’O, a Deus, como seu Esposo, a Cristo como se oferece, na sua entrega total”.

 

Cristo basta

Nesta celebração de consagração de duas leigas na Ordem das Virgens, o Cardeal-Patriarca alertou ainda para um uso frequente da vida cristã, como “adjetivo”, sem procurar a sua vivência em plenitude. “Nós falamos muito de vida cristã, mas falamos dela como um adjetivo que se tira e põe. Não, Cristo é substantivo. É uma substância nova! O cristianismo não é outra coisa se não Cristo no mundo e os sentimentos de Cristo, partilhados. Isto não se vive a meias! Não é uma Missa ao Domingo, ou uma oração a correr. É uma totalidade”, alertou, sublinhando que “a virgindade na Igreja, como acontecia nas primeiras comunidades cristãs, é a expressão desta totalidade”.

Na igreja de Nossa Senhora do Cabo, em Linda-a-Velha, D. Manuel Clemente dirigiu-se às mais recentes consagradas na Diocese de Lisboa para se congratular e lembrar que na realidade da Ordem das Virgens retoma-se a afirmação: “Cristo basta e só com Cristo nos bastamos”. “Isso é muito importante porque depois, na realidade da vida de cada uma, haverá sempre alguém que pergunte ‘porque é que aquela não se casou?’. Porque, pela vossa vida, e no vosso caso específico, mostram que Cristo basta! Para quem assume outros estados no mundo, por exemplo, em casal, tendo família, a seu modo, é bom que existam sinais assim, vivos, porque, mesmo nos outros estados, nós só seremos substancialmente cristãos se vivermos estas ligações intermédias, numa maneira absoluta, na esponsalidade de Cristo”, frisou o Cardeal-Patriarca, sublinhando que “esta lembrança é muito importante para nós todos”. “Faz parte da vida de Cristo, faz parte da herança que Ele nos deixou e que a Virgem Maria, mãe de Cristo, vos acompanhe sempre porque Ela sabe estas coisas muito melhor do que nós”, concluiu. 

 

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Ordem das Virgens: missão no mundo

O Concílio Vaticano II restaurou a antiquíssima Ordem das Virgens, “entretanto caída em desuso”. O Papa Paulo VI aprovou o novo ritual, que entrou em vigor a 6 de janeiro de 1971. Na Diocese de Lisboa, esta expressão de especial consagração teve as ‘Normas para a admissão de candidatas ao Rito de Consagração na Ordem das Virgens’ (http://goo.gl/c9QME7) publicadas em dezembro de 2012, pelo então Cardeal-Patriarca D. José Policarpo. O documento lembra que “apesar da variedade de formas instituídas de vida consagrada, surgem mulheres que, na sua vocação de virgindade, não se identificam com nenhuma delas. Compete à Igreja, atenta e solícita, não deixar sem condições de realização, no discernimento, na fidelidade, na maneira de se situar na missão da Igreja em cada tempo, nenhuma vocação autêntica de amor virginal”.

As normas para a admissão de candidatas ao Rito de Consagração na Ordem das Virgens no Patriarcado de Lisboa dão também a conhecer vários aspetos seguidos pelas mulheres que procuram esta forma de especial consagração:

 

Discernimento

Esta “etapa importante” deve “avaliar o equilíbrio humano, sobretudo afectivo, as motivações da sua escolha, a profundidade da sua relação com Cristo, a sua disponibilidade sem limites nem condições para servir a Igreja”. A primeira parte do discernimento “deve ser feita em diálogo com um sacerdote, orientador espiritual, que apresentará ao Bispo diocesano a candidata à consagração virginal”, mediante algumas condições apresentadas pela candidata.

 

Etapas até à Consagração

Nesse momento, a candidata será admitida “a um tempo de formação e prova” sob a orientação de um grupo de sacerdotes e outras pessoas, nomeadas pelo Patriarca de Lisboa, e “entregar-se-á com mais empenho à oração, ao estudo e ao apostolado”, valorizando o cuidado do “cabal cumprimento dos seus deveres profissionais e daquele modo de viver que por si só é testemunho da fé cristã e atrai os homens para Cristo”.

 

Espiritualidade

“A consagração a Cristo, em amor esponsal, e o amor à Igreja, são as traves desta espiritualidade”. Por isso, segundo as normas, a “Eucaristia, o Ofício Divino, em especial as Laudes e as Vésperas, a oração, sempre que possível na forma de adoração eucarística, são a primeira expressão deste amor esponsal”. Nesta etapa, onde é apontado “o amor a Nossa Senhora, que é por excelência a Virgem Consagrada pelo amor de Deus”, é lembrada “a pobreza evangélica, a disposição de pôr ao serviço do Reino tudo o que se é e tudo o que se tem, dando prioridade absoluta às realidades do Espírito”.

 

Formas de vida e missão

“A virgem consagrada é, normalmente, uma leiga que vive no mundo” e que “na Igreja, na comunidade eclesial, deve encontrar a dimensão comunitária da sua consagração”. Se as circunstâncias “possibilitarem e aconselharem”, “poderá viver em comunidade com outras virgens consagradas”. É da competência do Bispo diocesano dar “qualidade de missão eclesial à sua presença no mundo” e fica também ao seu critério “pedir a uma virgem consagrada uma missão específica, na visibilidade da missão da Igreja”.

texto e fotos por Filipe Teixeira
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