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Núcleo de Santo António do Museu de Lisboa
O santo de todo o mundo
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De padroeiro de Portugal a ‘santo casamenteiro’, a vida e obra do santo que nasceu em Lisboa são dadas a conhecer num museu renovado, junto da casa onde nasceu, a um público que chega de todo o mundo “fruto de uma devoção com mais de oito séculos”. Numa visita guiada ao Núcleo de Santo António do Museu de Lisboa, o coordenador, Pedro Teotónio Pereira, revela pormenores de um santo “muito próximo de nós, que até nos esquecemos dele”.

 

Dos quatro cantos do mundo chegam a Lisboa turistas interessados em saber mais sobre o santo de que ouviram falar. Os milagres, os ensinamentos e os festejos associados à vida de Santo António alimentam oito séculos de uma devoção que não é só portuguesa ou italiana, mas mundial e que, hoje, recordados num museu, situado bem junto ao local onde nasceu, em frente da Sé de Lisboa. O Núcleo de Santo António do Museu de Lisboa foi renovado há um ano atrás e “é muito visitado por portugueses interessados pela história de Santo António, mas também por estrangeiros, maioritariamente brasileiros – fruto de uma tradição transportada pelos portugueses, durante os descobrimentos”. “Querem saber a história do santo português, sobretudo das tradições associadas ao ‘santo casamenteiro’”, revela, ao Jornal VOZ DA VERDADE, o coordenador deste espaço, Pedro Teotónio Pereira.

Apesar de ser conhecedor de uma parte da história do santo que é o único doutor da Igreja português, este responsável, que está nestas funções há três anos, considera que “tem sido uma grande descoberta aprofundar os conhecimentos sobre a vida de Santo António com estas pequenas histórias” apresentadas neste espaço em plena urbe.

 

Culto

Na visita guiada ao Núcleo Museológico, Pedro Teotónio Pereira começa por destacar o desenvolvimento do culto a Santo António em Portugal e nos países de língua portuguesa, “levado pelos frades franciscanos que viajavam nas caravelas dos descobridores”. “É, por isso, um dos santos mais conhecidos do mundo”, afirma este responsável, evidenciando a grande relação da cidade de Lisboa com a figura de Santo António: “A tradição diz que o Santo António nasceu no lugar onde está hoje a igreja com o seu nome, em frente à Sé de Lisboa. Depois da sua morte, em 1231, a gestão da Câmara Municipal de Lisboa ficou proprietária do espaço, onde veio a funcionar a sede camarária, durante 400 anos, até ao terramoto de 1755”. Teotónio Pereira destaca a forte ligação da cidade a Santo António, facto que também foi assinalado aquando a visita do Papa João Paulo II a Lisboa, no ano de 1982, no momento em que visitou aquela igreja e que também pode ser recordado através de um vídeo que está a ser exibido neste espaço dedicado ao santo português.

 

Santo casamenteiro

De padroeiro de Portugal (a par de Nossa Senhora da Conceição), a protetor dos lares e da família, a popularidade de Santo António é invocada e retratada em pagelas, selos, notas, embalagens de cigarros, pão-de-ló e até na lotaria. “Uma imagem interessante do Santo António, presente nesta exposição, é uma pagela com uma rapariga a pedir-lhe que não lhe dê um namorado, mas um noivo, porque o que ela quer é casar”, conta Pedro Teotónio Pereira, referindo que “a ideia do ‘santo casamenteiro’ não é só portuguesa, mas espanhola, italiana e, até, francesa”. “É um santo muito popular, as suas representações são uma forma carinhosa de as pessoas se ‘apropriarem’ do Santo António, a quem recorrem em muitos momentos da vida”, observa. Segundo Pedro Teotónio Pereira, “existem várias razões” para a atribuição do ‘estatuto’ de “casamenteiro” ao santo português. Uma delas revela que esta tradição foi herdada de um outro santo, igualmente popular e muito festejado no mês de junho, São João. “Durante a vida de Santo António, a Igreja estava a instituir o matrimónio como sacramento e ele foi um grande defensor dessa ideia, contra os hereges que diziam o contrário. Existe também a tradição de Santo António como grande conciliador de casais e, por isso, muitos milagres são-lhe atribuídos. No entanto, é a São João que se atribui a cristianização das festas do solstício de Verão que são muito antigas. Com essas festas, festejava-se muito a abundância, a pujança da natureza e a fecundidade e, por isso, São João era também um santo casamenteiro - tradição que, depois, Santo António veio a herdar”, refere este coordenador.

O santo popular português, “que escolheu Pádua para viver os seus últimos dias”, tem igualmente forte presença na vida militar do país, tendo chegado a ser, no século XVI, “alistado no exército, como se fosse um soldado”. Este facto é comprovado pelo recibo de vencimento de ‘capitão’, de 15 mil reis por mês, exposto no Núcleo Museológico Antoniano. “Nas batalhas contra os estrangeiros, a imagem de Santo António era colocada na frente da batalha, com vista à proteção dos portugueses”, descreve.

 

Representação

Depois de ingressar, aos 18 anos, como noviço na Ordem dos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho, no Mosteiro de São Vicente de Fora, em Lisboa, Santo António transita para o Mosteiro de Santa Cruz, em Coimbra, onde conheceu cinco franciscanos que viriam a ser martirizados em Marrocos. Tal facto leva o santo de Lisboa a ingressar na Ordem de São Francisco, partir para Marrocos, em missão, e a deixar para trás o nome de batismo – Fernando de Bulhões –, vindo a chamar-se de António, evocando assim o nome do convento onde vivia, dedicado a Santo Antão dos Olivais. É, por isso, de hábito franciscano e tonsura que Santo António passa a ser representado pelos artistas ao longo dos séculos. Das inúmeras representações que é possível encontrar no Núcleo de Santo António, do Museu de Lisboa, Pedro Teotónio Pereira observa que o santo “tem quase sempre o livro na mão, sinal da sabedoria e conhecimento das sagradas escrituras. Mais tarde, junta-se a açucena – sinal de pureza – e a cruz – sinal do cristocentrismo franciscano. Só a partir do século XVI, e só depois com a generalização feita pela arte barroca, aparece o Menino Jesus ao colo de Santo António”, numa referência a um dos muitos milagres atribuídos.  

 

Sermões

Também os seus escritos são lembrados na exposição sobre a figura de Santo António. Os conhecidos “sermões” foram escritos no final da sua vida, em Itália – país onde chegou após os ventos terem arrastado a embarcação de onde regressava da sua missão em Marrocos –, e publicados com a intenção de servirem de “instruções para outros frades prepararem a oratória”. Estes sermões, segundo o coordenador do Museu Antoniano, vão “influenciar muitos oradores, ao longo dos séculos”, refere Teotónio Pereira, dando como exemplo padre António Vieira, com o célebre ‘Sermão de Santo António aos Peixes’, cujos versículos podem ser escutados, neste espaço em Lisboa, pela voz da artista brasileira Maria Bethânia.

Com o terramoto de 1755 que abalou a capital portuguesa, a Sé ficou destruída e da igreja de Santo António, em frente, apenas sobreviveu o altar-mor e a imagem que está atualmente na igreja. “Isso foi entendido como um milagre e rapidamente as pessoas começaram a contribuir com esmolas para a recuperação do templo. Começam também a surgir os registos de azulejos, que eram colocados nas fachadas das casas, por cima das portas, pedindo proteção. A ligação de Santo António à cidade e às famílias foi sendo cada vez mais forte”, salienta o coordenador da exposição sobre ‘o santo de todo o mundo’, como lhe chamou o Papa Leão XIII, em 1895.

 

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Tronos de Santo António: tradição recuperada

Em pleno mês de festas populares, a tradição dos ‘tronos de Santo António’ foi relançada, este ano, pelo Núcleo de Santo António do Museu de Lisboa. “Lançámos o repto à população e fornecemos as estruturas para as pessoas decorarem e exporem os ‘tronos’ na rua. Houve uma grande adesão, com dezenas de paróquias, associações e lojas que participaram, em toda a cidade de Lisboa”, salienta Pedro Teotónio Pereira, coordenador do espaço museológico dedicado a Santo António. 

 

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Bispo Auxiliar considera Santo António como “exemplo do homem cristão”

Na Missa celebrada por D. José Traquina, no passado dia 13 de junho, na Solenidade de Santo António, na igreja de Santo António em Lisboa, o Bispo Auxiliar do Patriarcado destacou o exemplo do santo lisboeta para os cristãos. Santo António “é o exemplo do homem cristão, religioso, sacerdote, bem formado e realizado, mas não acomodado e, por isso mesmo, disposto a uma maior exigência de testemunho, motivado pela necessidade missionária do anúncio do Evangelho, e também pela necessidade de denunciar os erros da Fé e a preguiça e a indiferença de muitos”, referiu.

O Bispo Auxiliar de Lisboa, que presidiu à celebração em representação do Cardeal-Patriarca, sublinhou ainda a proximidade da população de Lisboa com o santo. “A ternura e a frequência com que os lisboetas recorrem a Santo António, e pelo facto de terem sido atendidos tantas vezes, mostram bem o poder espiritual da sua intercessão e a atenção que o Santo Padroeiro tem para com esta sua cidade”. Santo António “não viveu uma vida para si mesmo”, mas “profundamente identificado com Cristo e, harmonizando bem a contemplação e a ação, tornou-se ‘sal da terra e luz do mundo’”, concluiu D. José Traquina.

 

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Visitas ao Núcleo de Santo António do Museu de Lisboa

A exposição pode ser visitada de terça-feira a Domingo, das 10h às 18h (encerra das 13h às 14h) e tem um custo de 1,50¤.

Largo de Santo António da Sé, 22, 1100-499 Lisboa | Tel. 218 860 447 | email: museudesantoantonio@cm-lisboa.pt

texto e fotos por Filipe Teixeira
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