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P. Manuel Barbosa, scj
Proximidades pascais

1. No simpósio internacional sobre o sacerdócio que decorreu a 17 de fevereiro, o Papa Francisco apontou quatro proximidades para aqueles que exercem estas atitudes no ministério sacerdotal. Perceberemos certamente que estas quatro tónicas, particularmente a primeira e a última, poderiam ser ditas também para os fiéis leigos e para os consagrados e consagradas.

A primeira é a proximidade com Deus, “com o Senhor próximo”. Isso significa profunda e fecunda intimidade com o Senhor, contacto assíduo com a Palavra de Deus, proximidade concreta na Eucaristia, cultivo do silêncio da adoração e da consagração a Maria, frequência dos sacramentos, intensa vida de oração, sem “reduzir a vida espiritual a mera prática religiosa”, conformação a Cristo Crucificado e Ressuscitado.

Depois de referir a proximidade com o bispo e entre os presbíteros, dois relevantes dinamismos paterno e fraterno e sempre no discernimento comum da única vontade de Deus, o Papa salientou, como quarta marca da identidade sacerdotal, a proximidade e pertença ao santo Povo de Deus, assumida como uma graça e não como mero dever. “O povo pede-nos pastores do povo e não ‘clérigos de Estado’ nem ‘profissionais do sagrado’; pastores que se entendam de compaixão, de oportunidade; homens corajosos, capazes de parar junto de quem está ferido e estender-lhe a mão; homens contemplativos que possam, na proximidade com o seu povo, anunciar nas chagas do mundo a força operante da Ressurreição”.

E a finalizar a sua reflexão de modo incisivo e concreto, o Santo Padre convida-nos à centralidade no Senhor, “que olha com ternura e compaixão para os sacerdotes, oferecendo-lhes as coordenadas a partir das quais hão de reconhecer e manter vivo o ardor pela missão: proximidade que é compassiva e terna, proximidade com Deus, com o bispo, com os irmãos presbíteros e com o povo que lhes foi confiado. Uma proximidade com o estilo de Deus, que Se aproxima com compaixão e ternura”.

Ao estilo de Jesus e na renovação da vocação de vida cristã de cada um de nós, oxalá não nos cansemos de cultivar as proximidades fecundas com Deus e com os outros!

 

2. Na Santa Missa Crismal, o Papa dirigia-se novamente aos sacerdotes, convidando-os a ter um olhar próximo e fixo em Jesus. E indicava três “idolatrais escondidas” que afastam dessa proximidade e “separam da presença benéfica e amorosa de Jesus, do Espírito e do Pai”: a mundanidade espiritual, a cultura do efémero, da aparência da maquilhagem, do triunfalismo sem Cruz, daí a forte interpelação “um sacerdote mundano não passa dum pagão clericalizado”; a primazia dada ao pragmatismo dos números, do amor às estatísticas, das pessoas reduzidas a simples números; o funcionalismo da eficácia sem mistério e sem esperança, dos planos do caminho sem olhar o próprio caminho. Manter o olhar fixo em Jesus, dando espaço ao Senhor tão próximo e íntimo de cada um de nós, é um caminho de proximidade pascal para os sacerdotes, leigos e consagrados.

 

3. Vivemos a celebração da Páscoa, máxima proximidade de Deus condensada na Morte e Ressurreição de Jesus, este ano vivida em contexto de guerra e de pandemia, que infelizmente permanecem. Em tempos de vida nova e de ressurreição, desejamos que termine a guerra na Ucrânia e estejam próximos a paz e o bom entendimento entre os povos; desejamos que chegue depressa o fim da pandemia que continua a ceifar vidas e se aproximem rapidamente tempos de saúde e bem-estar para todos. O ato de consagração da Rússia e da Ucrânia ao Imaculado Coração de Maria, proclamado simultaneamente em Roma e em Fátima a 25 de março, deveria continuar a ser rezado para que o nosso desejo pascal se transforme sempre em atitudes de paz contra a guerra, de vida contra a morte, de convivência contra a violência, de amor contra o ódio. Sejamos felizes em tempo pascal, vivido na intensa proximidade do Senhor e dos irmãos!