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Consagração da Rússia e da Ucrânia ao Imaculado Coração de Maria
“Travar a guerra”
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O historiador e jornalista José Milhazes acredita que o ato de consagração da Rússia e da Ucrânia ao Imaculado Coração de Maria vai ter “um forte reflexo” no “mundo católico e não só”, mas que isso “poderá não acontecer na Rússia”. A vaticanista Aura Miguel recorda os vários atos de consagração e explica o significado do momento que o Papa Francisco convocou para este dia 25 de março.

 

O historiador e jornalista José Milhazes considera que o ato de consagração da Rússia e da Ucrânia ao Imaculado Coração de Maria “é mais uma iniciativa do Papa Francisco para travar a guerra”, e tem “um aspeto muito simbólico”. “Certamente que no mundo católico e não só, irá ter um forte reflexo, o que poderá não acontecer na Rússia, devido à onda de censura e de anti informação que lá tem lugar”, alerta este especialista em assuntos internacionais, em declarações ao Jornal VOZ DA VERDADE.

José Milhazes escreveu, em 2016, o livro ‘A Mensagem de Fátima na Rússia’ (Alêtheia Editores), onde analisa “como é que a mensagem e o fenómeno de Fátima chegavam à União Soviética, ultrapassando a chamada Cortina de Ferro”. “Ela chegou a muitos lugares e havia russos que sabiam dessa mensagem. Claro que depois do fim da União Soviética, vieram a Fátima milhares de russos, tanto crentes como ateus, e a maioria deles – e eu estive com muitos, com centenas, talvez – ficavam muito surpreendidos com a ligação entre Fátima e a Rússia. Como é que, numa terriola portuguesa lá no fim do mundo, soou uma mensagem tão importante para a Rússia”, refere este jornalista, sublinhando saber que “há russos que estão a rezar e a pedir a Fátima para acabar com a guerra”. “Mas penso que é uma minoria, porque o Patriarca da Igreja Ortodoxa Russa, Círilio, cometeu um terrível pecado ao apoiar esta matança dos ucranianos, entre os quais estão milhões de cristãos ortodoxos, que seguiam a Igreja Ortodoxa de Moscovo. Isto é uma autêntica tragédia, mesmo para as Igrejas Ortodoxas no mundo, que veem nesta posição da Igreja Ortodoxa uma posição absolutamente inaceitável, quando se apoia claramente uma guerra, sendo isso pecado – porque nós não estamos na época das Guerras santas, nem das Cruzadas”, lamenta este historiador e jornalista, que nasceu na Póvoa de Varzim e, em 1977, com 20 anos, foi estudar para a então União Soviética.

 

Visita “impossível”

Sobre o significado do encontro online do Papa Francisco com o Patriarca Ortodoxo de Moscovo, na quarta-feira da semana passada, dia 16 de março, José Milhazes diz ser “mais ou menos a mesma coisa que significa um possível encontro entre Putin e Zelensky”. “Neste caso, são dois chefes de duas Igrejas Cristãs muito importantes e acho que o diálogo não deve ter sido fácil. Porque Círilio teve que explicar a sua posição ao Papa Francisco, que desde o primeiro minuto está contra esta guerra e está ao lado dos ucranianos que sofrem”, sublinha.

Licenciado em História da Rússia na Universidade Estatal de Moscovo, José Milhazes considera que o papel da religião na solução desta guerra “é muito pequeno… ou praticamente inexistente”. “Porque se existisse um movimento religioso forte antiguerra na Rússia, isso poderia levar a outras consequências. Mas isso não acontece. Claro que há centenas de sacerdotes ortodoxos que se manifestaram contra a guerra, mas é pouco. Isso não põe em causa, digamos, o poder do Patriarca Círilio”, observa.

Questionado se, com esta guerra, o sonho do Papa Francisco – e que era também um dos grandes sonhos de João Paulo II – de visitar Moscovo fica mais distante, José Milhazes é taxativo ao responder que “fica impossível”. “A não ser que Putin seja rapidamente afastado do poder e a nova direção russa enverede por uma outra política externa, e dentro da Igreja Ortodoxa Russa haja forças capazes de se livrarem dos atuais dirigentes, e escolherem sacerdotes, patriarca e metropolitas mais sábios do que os atuais”, esclarece. ‘Não é, então, muito expectável…’, questionamos. “Olhe, é daquelas coisas: é uma questão de fé”, termina o historiador e jornalista José Milhazes, um dos grandes especialistas portugueses sobre a Rússia.

 

Confiar a paz a Maria

Para a vaticanista Aura Miguel, o ato de consagração da Rússia e da Ucrânia ao Imaculado Coração de Maria “significa, antes de mais, uma confiança na intercessão de Nossa Senhora pela paz”. “Um ato de consagração deriva, sobretudo, do que Ela própria pediu em Fátima, nas aparições de 1917. Nossa Senhora alertou para os erros dos homens, nomeadamente o risco de uma nova guerra, e fez um apelo à conversão, penitência e oração: ‘Se fizerem que Eu vos digo, haverá paz; se não, outra guerra pior virá, a Rússia espalhará os seus erros, muitas nações serão aniquiladas, os povos serão martirizados e o Santo Padre terá muito que sofrer’. Isto, infelizmente, verificou-se, com a Segunda Guerra Mundial, com todo o avanço da União Soviética, com a tremenda perseguição e milhões de mortos”, lembra a jornalista da Renascença, em declarações ao Jornal VOZ DA VERDADE.

Para a especialista em assuntos religiosos, “a coisa mais extraordinária” é que “este pedido de Nossa Senhora”, há mais de cem anos, “de certo modo, também pode ser para agora”. “Infelizmente, a história repete-se”, lamenta. “Nossa Senhora disse: ‘Para evitar isto, virei pedir a consagração das Rússia feita pelo Santo Padre, em união com os Bispos do mundo inteiro, e a devoção dos primeiros sábados’. É certo que houve uma consagração, feita por João Paulo II; é certo que, depois disso, mudou muita coisa no mundo, mas, agora, os erros dos homens continuam e a devastação ainda é pior”, acrescenta. Neste sentido, para Aura Miguel, o “grande significado” desta consagração é “a consciência de que o Homem, só por si, não consegue a paz”. “É fundamental negociar para a paz; mas é a consciência de que, à luz da fé, é preciso ter a paz de Cristo. E Nossa Senhora é uma poderosa intercessora para que isso seja possível”, considera a vaticanista, reforçando: “É muito impressionante que este ato de consagração signifique a certeza inabalável de que o Céu é condição fundamental para que haja paz – só Deus nos pode dar a paz justa”.

Aura Miguel refere que o Papa Francisco “está preocupadíssimo” com a guerra na Ucrânia, e lembra que “as ligações com a Rússia não são fáceis”. Os “vários Papas” têm mantido, por isso, sempre “muita prudência” nas relações com a Rússia. “Quando foi o encontro do Papa Francisco com o Patriarca Círilio, em Cuba, em 2016, a questão religiosa não foi praticamente abordada”, recorda. “O Papa não desiste de negociar e de dialogar. Mas quando anuncia a consagração da Rússia é já, digamos, a ‘arma’ de quem sabe que não vai ser fácil o diálogo e pede a intercessão de Nossa Senhora. A minha intuição é que do lado da Rússia esta consagração não vai ser muito bem vista”, pressente.

 

Insistência da Irmã Lúcia

O ato de consagração da Rússia e da Ucrânia ao Imaculado Coração de Maria vai ter lugar nesta sexta-feira, 25 de março – “dia de uma festa fundamental na Igreja, a Anunciação” –, às 17h00 (hora de Roma), na Basílica de São Pedro, no Vaticano, e na Capelinha das Aparições, em Fátima, onde vai estar o cardeal Konrad Krajewski, Esmoler Apostólico, como enviado do Papa, e foi “um pedido dos Bispos da Ucrânia, de olhos postos em Nossa Senhora de Fátima”. “A mensagem aponta para confiar-se inteiramente nas mãos de Maria”, salienta a jornalista, sublinhando que a consagração da Rússia “sempre foi uma insistência da Irmã Lúcia”. “Mas os Papas eram muito prudentes, por causa da situação na União Soviética, de perseguição aos cristãos, e nunca disseram a palavra ‘Rússia’. Nunca foi expressa na oração de consagração do mundo feita por Pio XII, em 1942, e a feita no final do Concílio Vaticano II, em 1964, por Paulo VI. Nunca foi expressa a palavra ‘Rússia’ e o próprio João Paulo II não a formulou, nem quando fez a consagração do mundo, em Fátima, em 1982 – que a Irmã Lúcia fez-lhe saber que era preciso ser em união com os Bispos do mundo inteiro, e que o Santo Padre voltou a fazer –, nem em 1984, no Vaticano, quando o Muro de Berlim ainda nem sequer tinha caído”, lembra a especialista em assuntos religiosos, considerando que será “muito interessante” saber “se o próprio Papa Francisco formula a palavra ‘Rússia’”. “Eu creio que sim, porque ele anunciou a consagração da Rússia e da Ucrânia ao Imaculado Coração de Maria. No fundo, é um reavivar da grande atualidade da Mensagem de Fátima, que nós já sabíamos atual”, termina Aura Miguel.

 

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Nossa Senhora de Fátima na Ucrânia

A Imagem Peregrina de Nossa Senhora do Rosário de Fátima foi enviada, pela primeira vez, para a Ucrânia, tendo chegado à Igreja da Natividade da Santíssima Virgem, em Lviv, no dia 17 de março, com milhares de fiéis a pedir a paz a Maria. A Imagem n.º 13 da Virgem Peregrina partiu do Santuário de Fátima depois de um pedido feito pelo Arcebispo metropolita greco-católico de Lviv, D. Ihor Vozniak, para uma peregrinação durante 30 dias.

O Bispo de Leiria-Fátima acredita que a presença da “Mensageira da Paz” vai dar “consolação e esperança” a quem está a sofrer por causa da guerra. “É um sinal muito bonito de Fátima, e da presença do mundo religioso em tudo isto, para tanta gente no meio destes conflitos todos. Temos visto, até nas imagens, que a esperança da fé é aquilo que dá força, tantas vezes, às pessoas”, assinalou D. José Ornelas.

 

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“A guerra nunca é o caminho”

O Papa e Patriarca Ortodoxo de Moscovo, Círilio, conversaram pela primeira vez desde o início da guerra na Ucrânia, num encontro online a 16 de março, com Francisco a afirmar que “as guerras são sempre injustas”. “Quem paga é o povo de Deus. O nosso coração não pode deixar de chorar diante das crianças, das mulheres mortas, de todas as vítimas da guerra. A guerra nunca é o caminho. O Espírito que nos une pede-nos, como pastores, para ajudarmos os povos que sofrem com a guerra”, sublinhou o Papa, durante a videoconferência. “A Igreja não deve usar a linguagem da política, mas a linguagem de Jesus. Somos pastores do mesmo Povo Santo que crê em Deus, na Santíssima Trindade, na Santa Mãe de Deus: para isso devemos unir-nos no esforço de ajudar à paz, de ajudar os que sofrem, de buscar caminhos de paz, para deter o fogo”, referiu, ainda, o Papa Francisco.

texto por Diogo Paiva Brandão
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