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Comissão Independente para Estudo dos Abusos de Menores na Igreja
“Todas e todos quanto possam ter sido vítimas destes crimes hediondos que falem”
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O médico pedopsiquiatra Pedro Strecht vai coordenar, a pedido da Igreja, a Comissão Independente para Estudo dos Abusos de Menores na Igreja e garante que vai procurar a “verdade histórica” sobre estes “crimes hediondos”. A nova estrutura inicia funções em janeiro de 2022 e apelou à “disponibilidade” e “empenho” de “toda a sociedade civil”.

 

“Em Portugal, nos últimos tempos e tal como em diversos países, registou-se uma saudável onda de indignação, movida pela procura de uma verdade histórica, sobre o que poderá ter acontecido a um número incontável de menores no campo dos abusos sexuais em diversos contextos da sociedade, em especial no seio da própria Igreja Católica. (…) É para isso que aqui estamos, neste momento, a dar início a um trabalho que naturalmente se prevê complexo, longo, difícil de definir quanto a resultados finais, mas que verdadeiramente teria que ser feito, mesmo que ainda assim venha a ser olhado como origem de outros que se lhe possam vir a seguir no futuro”, salientou o coordenador da Comissão, na sessão de apresentação da nova estrutura, que decorreu na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, no passado dia 2 de dezembro. Segundo Pedro Strecht, a Comissão agora constituída organiza-se “de forma autónoma e independente da própria Igreja católica” e “definirá o seu tempo e método de atuação, com recolha e tratamento de depoimentos, informação documental e outros dados de relevo obtidos através de metodologias distintas, bem como elaboração e apresentação pública de um Relatório, balizando-o durante o ano civil de 2022 (de janeiro a dezembro), salvo o surgimento de condicionantes de exceção que poderão vir a ditar o alargamento deste prazo”. “Relembra, desde já, que o encorajamento para depoimento das vítimas requer um habitualmente longo tempo de espera e conquista de confiança para que estas sintam que a sua palavra é importante para relatar experiências traumáticas das suas vidas passadas”, frisou. “Por isso, apelamos desde já a todas e todos quanto possam ter sido vítimas destes crimes hediondos para que falem. Que relatem, finalmente e sem medo, o que lhes aconteceu. Mesmo perante naturais hesitações, completamente aceitáveis diante de situações sobre as quais podem ter passado décadas, tocando agora em assuntos que não desejam voltar a fazer emergir, por favor, confiem na vossa voz interior e na utilidade de a partilhar para que nada de semelhante possa continuar a acontecer”, convidou.

O coordenador da Comissão Independente para Estudo dos Abusos de Menores na Igreja lembra que “não podemos mudar o passado, mas podemos sempre construir um futuro melhor e livre da repetição deste tipo de situação junto dos vossos filhos, netos ou simplesmente de todas as crianças e adolescentes em que certamente podemos rever partes de nós mesmos”. “É por isso que a Comissão deseja contar com a disponibilidade e o empenho de toda a sociedade civil, toda, nomeadamente daquelas e daqueles que no passado tenham sido alvo de abusos sexuais no seio da Igreja Católica Portuguesa enquanto menores de idade, seguindo o lema de “Dar Voz ao Silêncio” para “Conhecer o Passado, Planear o Futuro”. Para tal, repetimos, garante-se desde logo um absoluto respeito e sigilo pessoal e profissional sobre a história de vida traumática de toda e qualquer pessoa que nos venha a contactar”, assegurou Pedro Strecht.

 

Caminho de verdade

Presente na sessão de apresentação da Comissão Independente para Estudo dos Abusos de Menores na Igreja, o presidente da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) manifestou o desejo de que este seja um “caminho de verdade”. “Que este seja um caminho de verdade, sem preconceitos nem encobrimentos, mas de autêntica libertação, autenticidade e dignidade para todos”, salientou D. José Ornelas, que, ao coordenador, Pedro Strecht, agradeceu a “disponibilidade para aceitar o desafio de formar e liderar” a nova Comissão. “Agradeço, de coração, caro Doutor Pedro, o ter aceitado o nosso pedido, com a liberdade de escolher a equipa que hoje anuncia [ver caixa], na qual temos fundamentada confiança e à qual daremos todo o apoio necessário. Ao mesmo tempo, queremos que sejais livres, com a vossa competência e humanismo”, frisou.

O prelado lembrou ainda que as Comissões de Proteção de Menores, criadas em cada diocese, “com pessoas competentes dentro das diversas áreas que devem intervir na proteção de menores, bem como a sua coordenação nacional em curso, constituem e continuarão a ser a base deste cuidar, formar e acompanhar o caminho de proteção, que promova e garanta a proteção, segurança e dignidade que se pretende para as nossas crianças, adolescentes e jovens”.

 

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A Comissão

A recém-criada Comissão Independente para Estudo dos Abusos de Menores na Igreja, segundo Pedro Strecht, é “multidisciplinar, paritária” e conta com a presença dos seguintes membros efetivos: “Pedro Strecht, Médico Pedopsiquiatra (Coordenador); Álvaro Laborinho Lúcio, Juiz Conselheiro Jubilado do Supremo Tribunal de Justiça, antigo Ministro da Justiça, Escritor; Ana Nunes de Almeida, Socióloga e Investigadora Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa e Presidente do respetivo Conselho Científico. Vice-presidente do Conselho Nacional de Saúde, membro do Conselho Consultivo do IAC e do Conselho de Ética do Laboratório Pro-Child. Tem desenvolvido pesquisa na área dos maus-tratos a menores, catástrofes, crianças e animais. Coordenou o estudo sobre Maus Tratos a Crianças na Família, encomendado pela AR em 1999; Daniel Sampaio, Psiquiatra, Professor Catedrático Jubilado da FML; Fundador da Sociedade de Terapia Familiar, autor de dezenas de livros na área da Saúde Mental, com especial foco na adolescência; Filipa Tavares, Assistente Social e Terapeuta Familiar; trabalhou cerca de 25 anos numa IPSS, Casa da Praia/Centro Dr. João dos Santos com famílias disfuncionais e de risco; Catarina Vasconcelos, Cineasta, Licenciada na Faculdade de Belas Artes com pós-graduação em Antropologia Visual no ISCTE e mestrado no Royal College of Art, Londres”.

De acordo com o coordenador, “durante o decurso do tempo de intervenção desta Comissão, podem vir a ser integrados mais profissionais cuja intervenção especializada se revele fundamental em diversas etapas do trabalho a realizar”.

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